domingo, 28 de agosto de 2011

O CONTO DO GALO

Naquele final de semana, ao chegar à chácara, sabendo das notícias do galinheiro, o chacareiro anunciou a sentença: “o galo vai pra panela”. Como aceitar que aquele molóide bebesse os ovos que as galinhas botavam? Decerto não queria que a comunidade galinácea aumentasse.
A situação do galo não era muito confortável. Tempos atrás, apenas ele reinava no galinheiro. Ele era único, dono de si, bonito. Andava majestosamente por entre as galinhas, que brigavam por qualquer cisco. Ele não. Quando menos esperava, caía alguma comida perto dele.
Um dia, porém, as galinhas começaram a lhe bater, bicar-lhe, que já não podia mais andar por entre elas sem ser notado. Passou a se esconder no galinheiro e passava o dia todo de cócoras para não ser atingido no traseiro por alguma galinha que ia lhe aporrinhar no esconderijo.
Como não mais seduzia, o chacareiro trouxe um outro galo. Jovem, bonito, o intruso passou a ser cortejado pelas galinhas. Ele, nunca mais namorou uma galinha, só apanhava delas.
No final de domingo, a promessa seria cumprida. Levariam o galo para São Paulo. Mortinho, mortinho. Já tinha endereço certo: a panela do Seu Agostinho. O genro do chacareiro correu atrás do galo, que corria, que corria e gritava. Nunca havia corrido tanto. Num momento pegaram-lhe o rabo, aos poucos já estava nos braços do seu algoz.
O galo, repentinamente, foi ficando roxo. Colocaram-no numa caixa e o galo roxo. De repente, ele deu um pulo... outro pulo, caiu no chão... roxo... sem vida... o bico aberto.
O galo deixou de existir. Não mais sedutor, não mais sofredor, não mais cozido. O galo morreu.
A menina da cidade vendo aquilo, e com a cabeça cheia de teorias de preservação disso e daquilo, chorou, chorou, chorou. Nunca mais comeria uma galinha e, quem correu atrás do galo, morreria igualzinho. Assim dizia a menina e fez todos chorarem também.

CLARICE TEIXEIRA ALMEIDA

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Amanheceu. Os primeiros raios de sol convidavam para mais um dia de trabalho ardento.
Naquele vilarejo não havia novidade. Todos os dias eram iguais. Só se percebia que era um outro dia por causa do anoitecer e do amanhecer.
Povoado pobre, pessoas rudes. Não havia escola. Só além-rio, três horas de canoa. Mas ninguém se encorajava. Muito tempo na água. E o medo de Iara!
A sobrevivência se dava pela pesca, mas o rio era traiçoeiro. Quantos foram e não voltaram!
Naquele dia, Ubaldo despediu-se da mulher, do filho e foi para a margem do rio maravilhado, pois o tempo prometia muitos peixes.
Caminhou lado a lado com Pitoco. O cachorro acompanhava seu dono até a margem e lá ficava até o seu retorno.
Mas, naquela tarde, Ubaldo não voltou e, dizem aqueles que por lá passaram à noite, que viram a sombra de um cachorro nadando rio adentro.
A história que contam na vila é que Ubaldo foi seduzido por Iara. É sempre assim com todos os homens da aldeia.
No povoado já não há mais ninguém. Ninguém tem coragem para desvendar o rio.

Clarice Teixeira Almeida