O CONTO DO GALO
Naquele final de semana, ao chegar à chácara, sabendo das notícias do galinheiro, o chacareiro anunciou a sentença: “o galo vai pra panela”. Como aceitar que aquele molóide bebesse os ovos que as galinhas botavam? Decerto não queria que a comunidade galinácea aumentasse.
A situação do galo não era muito confortável. Tempos atrás, apenas ele reinava no galinheiro. Ele era único, dono de si, bonito. Andava majestosamente por entre as galinhas, que brigavam por qualquer cisco. Ele não. Quando menos esperava, caía alguma comida perto dele.
Um dia, porém, as galinhas começaram a lhe bater, bicar-lhe, que já não podia mais andar por entre elas sem ser notado. Passou a se esconder no galinheiro e passava o dia todo de cócoras para não ser atingido no traseiro por alguma galinha que ia lhe aporrinhar no esconderijo.
Como não mais seduzia, o chacareiro trouxe um outro galo. Jovem, bonito, o intruso passou a ser cortejado pelas galinhas. Ele, nunca mais namorou uma galinha, só apanhava delas.
No final de domingo, a promessa seria cumprida. Levariam o galo para São Paulo. Mortinho, mortinho. Já tinha endereço certo: a panela do Seu Agostinho. O genro do chacareiro correu atrás do galo, que corria, que corria e gritava. Nunca havia corrido tanto. Num momento pegaram-lhe o rabo, aos poucos já estava nos braços do seu algoz.
O galo, repentinamente, foi ficando roxo. Colocaram-no numa caixa e o galo roxo. De repente, ele deu um pulo... outro pulo, caiu no chão... roxo... sem vida... o bico aberto.
O galo deixou de existir. Não mais sedutor, não mais sofredor, não mais cozido. O galo morreu.
A menina da cidade vendo aquilo, e com a cabeça cheia de teorias de preservação disso e daquilo, chorou, chorou, chorou. Nunca mais comeria uma galinha e, quem correu atrás do galo, morreria igualzinho. Assim dizia a menina e fez todos chorarem também.
CLARICE TEIXEIRA ALMEIDA
domingo, 28 de agosto de 2011
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